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Por que os carros novos brasileiros estão entre os mais caros?

Se o movimento na venda de carros no Brasil, durante o ano de 2015, foi de verdadeira marcha à ré, você se pergunta por que os preços se mantêm altos?

Segundo o mais recente balanço das vendas de veículos novos, publicado pela Anfavea, (representante das montadoras de veículos), em setembro de 2015 as vendas caíram em 32,5%, no comparativo com o mesmo mês do ano anterior. As quedas vêm se acumulando, sendo que em relação a agosto a redução foi de ordem de 3,5%. Esse foi o pior mês de setembro, quanto a venda de veículos, dos últimos oito anos.

Se as montadoras estão vivendo um ano de estoque alto e baixa nas vendas, é natural que os consumidores se perguntem por que o preço não diminuiu.

Especialistas afirmam que para que isso acontecesse somente uma queda nas vendas de 50% faria com que o preço baixasse, mas a outra séria consequência seriam as demissões. Se as montadoras estão conseguindo se manter de pé através de demissões, férias coletivas e suspensão de contratos, com uma redução ainda maior das vendas o número de demissões seria catastrófico.

Promoções e descontos não estão funcionando

Diariamente vemos nos noticiários os números da crise da indústria automobilística, em todos os estudos econômicos. Os comerciais na tevê e na mídia em geral estão cada vez mais oferecendo “a maior promoção de todos os tempos”. A verdade é que, como resultado da crise econômica, o consumidor brasileiro deixou de comprar, principalmente veículos, bens duráveis, artigos supérfluos, viagens e até no supermercado.

Para o ano de 2015, a projeção de redução nas vendas de veículos, segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) é de -18% em comparação com o ano de 2014

Em 2015, a cada mês estamos vendo as vendas de carro diminuírem. A queda no mês de abril foi de 23,73%, em relação a abril de 2014. Os pátios das montadoras estão abarrotados, o que levou às fábricas a decidirem pela redução drástica da produção e no número de funcionários. Essa situação provocou greves e paralisações, levando a mais estagnação e pessimismo à economia.

Aproximadamente 250 revendedoras de veículos fecharam as portas, no primeiro semestre de 2015, com o desemprego de 12 trabalhadores. A General Motors da América do Sul declarou que esta crise é pior do que a de 2008, que causou os grandes estragos na economia americana. Desde aquela época, a indústria automobilística brasileira vinha sendo beneficiada com a isenção de IPI, além de outros impostos, o que mantinha o consumo nesse setor, mas fazia com que o governo brasileiro deixasse de arrecadar uma importante fatia de sua receita. O atual momento, no entanto, o governo tenta implantar um sério ajuste fiscal, com a volta dos impostos, além de juros altos, inflação e desvalorização do real frente ao dólar.

Preços insistem em continuar altos

Apesar de promoções e facilidades de pagamento, com prazos longos que variam de 36 a 60 meses, as vendas não dão sinais de recuperação. É que os preços cobrados no Brasil são elevados, principalmente se comparados com outros países, tanto Alemanha, Estados Unidos e Canada, como emergentes como o México e a Argentina.

Como exemplo, um Toyota Corolla 2015, em versão básica, no Brasil custa R$70 mil. Nos Estados Unidos, a versão econômica do mesmo modelo, mas com câmbio automático, sair por cerca de US$17 mil. No México, o preço é de 231 mil pesos, ou seja R$46 mil.

Se fizermos um estudo comparando o preço dos carros com o salário médio dos países, veremos que, no Canadá, por exemplo, um Toyota custa 9 mil dólares canadenses, ou cerca de R$19 mil. A média salarial anual do trabalhador canadense é de 43 mil dólares canadenses, o que equivale a aproximadamente 5 desses veículos por ano. Se verificarmos a realidade do Brasil, veremos que a média salarial anual do trabalhador é de aproximadamente R$23 mil por ano, o que de longe não é suficiente para adquirir esse veículo. Seria necessário que o trabalhador trabalhasse três anos apenas para comprar o carro.

Motivos que encarecem os automóveis no Brasil

Por que os carros novos brasileiros estão entre os mais caros do mundo?

  1. Menor produtividade e inovação

A indústria automobilística brasileira é de montagem, mas não de domínio da tecnologia. Isso quer dizer que os carros são montados no país, de acordo com projetos tecnológicos desenvolvidos em países como o Japão, Estados Unidos e Europa. Nesses países há o predomínio da inovação e da alta produtividade.

O predomínio do investimento em inovação e tecnologia leva ao aumento da produtividade, o que faz com que os custos da produção diminuam e como resultado final, os preços são mais baixos. Onde existe menos tecnologia e produção é mais cara, a produtividade é menor, e os preços são maiores.

A produtividade mais alta leva a maior competitividade no mercado. Mas a produtividade alta é fruto do desenvolvimento científico e tecnológico, que só se obtém com educação e qualificação dos trabalhadores. O Brasil enfrenta grandes deficiências quanto à educação e não por acaso tem baixo índice de produtividade e competitividade. Sem investimento em educação também não há investimento em tecnologia, a mão de obra tem baixa qualificação e os salários são mais baixos.

    1. Custo elevado da produção

Apesar dos funcionários ganharem relativamente menos do que em outros países, os empregadores brasileiros tem um custo mais elevado, em virtude das características da legislação trabalhista. Entretanto, as montadoras internacionais se instalam no Brasil por causa das vantagens em isenção de impostos, oferecidas pelos governos municipais, estaduais e federal. Esses benefícios são oferecidos porque as montadoras oferecem empregos e contribuem para a economia. Até o momento, é claro, em que o custo da instalação e operação for vantajoso para o investidor.

A ascensão da nova classe média brasileira, ocorrida durante o governo do presidente Lula, além da redução e até isenção de impostos, beneficiou o setor automotivo. O consumo, nesse período, moveu a economia. Entretanto, o carro novo está deixando de ser prioridade, em um ano de crise econômica.

Por que os carros novos brasileiros estão entre os mais caros do mundo?

  1. A carga tributária

No Brasil, os impostos constituem quase metade do valor de um automóvel. Como exemplo, um Focus que custa R$67 mil, tem no preço R$28 mil de impostos, mais o IPI. Com um custo assim elevado, é inviável produzir carros baratos e o preço dos intermediários e topo-de-linha acaba por ser muito alto.

Na Argentina, os impostos correspondem a 29% dos preços e nos EUA equivalem a 6 a 9%. A média mundial fica em 16%, enquanto que no Brasil esse número é duas vezes maior: 32%.

Uma característica do sistema tributário do Brasil é ser complexo e o brasileiro não está acostumado a ver a aplicação dos recursos arrecadados, com transparência, para melhorar a qualidade de vida da população.

  1. Margem de lucros é maior do que no mercado mundial

Um dos motivos para a manutenção de preços altos para automóveis no Brasil é que a margem de lucro é em média de 10%. Esse índice é maior do que no mercado automotivo internacional, em que a margem praticada fica entre 5% e 3%, caso dos Estados Unidos. É difícil mudar uma cultura de preço de automóvel no Brasil, onde sempre os carros foram caros.
As matrizes da indústria automobilística, localizadas nos países mais desenvolvidos, determinam a margem de lucro das montadoras, como condição para permanecerem no Brasil. Caso se exige a redução do lucro, podem até sair do país, para locais onde possam obter mais vantagens.

Desde o agravamento da crise financeira, o setor automobilístico tem se pronunciado através de seus representantes, como a Anfavea, para declarar que não está mais tendo lucro. As explicações tentam mostrar que a inflação está crescendo e o preço dos carros novos vem diminuindo, não acompanhando a inflação. Mas se as empresas continuam no país, isso pode ser interpretado como sendo um sinal de que ainda existe uma alta margem de lucro no setor.

Seja qual for a sua opinião nesta discussão, vai concordar com um fato: os carros são muito caros no Brasil.

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